Entrevista com Claudio Duffrayer

07:53 4 Comments A+ a-


Nesse momento, você está preste a entrar em um mundo novo, um mundo mais sensível,  um mundo vivido pelo Claudio Duffrayer.  Esse autor, que lançou um livro há pouco tempo e que já foi resenhado aqui no blog, aceitou contar um pouco sobre esse mundo que fez ele escrever seu livro. 

1) Qual a sensação que teve ao escrever cada poema deste livro?     
Considero a sensação (se é que esse é o termo mais adequado)que me levou a escrever, assim como o que  senti depois de escrever cada poema tão importante quanto a sensação que tive enquanto escrevia. A partir do momento em que o processo começa ,há  algo que só posso chamar de inquietude. Não sei se o leitor pode perceber ao ler meu livro, mas em muitos poemas(muitos mesmo)eu trabalho em cima de uma imagem e preocupo-me em transcrevê-la para o  papel. E a essa imagem  soma-se o vazio que procuro calar com as palavras.  Isso deve ficar óbvio em poemas como A Esfinge , Os Anjos no Escuro e Cárcere(que acabou tornando-se um dos mais importantes)para citar só alguns exemplos. É essa sensação de vazio somada à imagem (ou série de imagens) que eu chego a mudar muitas vezes (nunca me limito a simplesmente escrever o que "vejo")o que me impele a escrever. A metáfora que considero mais adequada  é trazida no poema "Uma faca só lâmina", de João Cabral de Melo Neto. Foi um dos primeiros poemas que li quando comecei a escrever e é até hoje um dos meus preferidos. A poesia- não só o processo criativo, mas a força poética é exatamente como uma faca.     Nessa horas, quando a escrita começa, não se pode pensar em mais nada. É preciso ouvir o relógio, sentir  o peso da bala. O corte da  faca. Aprendi a duras penas que a poesia não pode ser ignorada. É preciso parar tudo o que se faz para escrever- e só reconheci os momentos de estímulo , tornando-os produtivos, após muito sangue,muito suor e muitas lágrimas.     O que sinto no fim de cada poema  descrevo como completude. É como o fim de um furor, o fim de uma tempestade... É algo sublime. Há um silêncio no sentido positivo do termo. Em uma de suas últimas entrevistas , Cabral descreve o poético como uma construção. "Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída , planejada- de fora para dentro." (CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA #1 , Instituto Moreira Salles,SP Março de 1996)     Evidentemente, eu não me comparo  a João Cabral, mas sua literatura me marcou muito quando comecei a ler poesia com mais atenção- e comecei a escrever. Fui marcado por sua literatura e sua forma de encarar a escrita , especialmente quando  penso em quão polêmico foi seu discurso bem como as palavras de Ferreira Gullar em relação ao mesmo.      Diz Gullar:  "Felizmente,a poesia do João Cabral não é o que João Cabral dizia que era.A teoria do João Cabral é uma coisa,a poesia outra.(...)Se não comove , então o que vai ser do poema?Comover não é levar às lágrimas , poesia não é novela das oito.Mas tocar as pessoas,despertar nas pessoas a fantasia,o fascínio por uma imagem,por uma metáfora"(Gullar,Ferreira,in Revista Poesia Sempre,nº 18,setembro de 2004;grifos meus).      Concordo, em parte,com ambos. Digo em parte porque ,para mim, a poesia é também uma construção . Mas de  dentro para fora. É colocar as palavras no papel para que o vazio se cale. E comover alguém com o poema é confirmar sua força perante o vazio. É a vitória do SER sobre o NADA.     

2) Você se inspirou em outros livros ou outros autores? Quais? 4) Quando foi que tudo começou?  Digo, quando você começou a escrever e o que te motiva e te inspira?      
"Se o homem vale por seus sentimentos, com dobradas razões o poeta,dada sua maior riqueza de sensações. Isso de escola é esquadria para medíocres. Só existe uma regra de escrita:a do escritor apoderar-se de sua língua e manejá-la de acordo com seu individualíssimo sentir." Essas são  as palavras de Orris Soares em seu "elogio a Augusto dos Anjos"( EU,Livraria São José 30 edição) .São palavras tentadoras em sua simplicidade. Ainda assim,de certa forma,soam verdadeiras-mesmo sendo tão  radicais.       Eu realmente não gosto muito da palavra "inspiração". Ainda assim,vejo-me forçado a reconhecer que existe algo nesse sentido,um "estímulo" gerado por determinados autores. A nossa Geração de 45 foi, de certa forma, uma influência.Não por seu formalismo, que nunca tentei reproduzir,mas pela intensidade dos poemas.Foi,de certa forma,minha porta de entrada para a poesia.A "Antologia da Nova Poesia Brasileira",organizada por Fernando Ferreira de Loanda(da editora Livros de Portugal) foi por muito tempo,enquanto eu saía da adolescência e adentrava a vida adulta ,meu livro de cabeceira.Também recebi influência direta do livro "Ecometria do Silêncio",de Alberto Pucheu.        Acontece que não fui influenciado só  por poetas.No fim da década de noventa(talvez 98/99,realmente não lembro), na mesma época em que comecei a ler com mais atenção tudo o que estava à minha disposição para talvez  defender-me de um processo de derrocada que  se instaurava de forma súbita e aterradora, assisti totalmente por acaso o show "Nocturne" da banda Siouxsie & the Banshees.Fiquei em transe.Corri atrás de todos os discos da banda.Identifiquei-me muito com as letras e com a atmosfera por elas criada(uso o termo "atmosfera" porque não encontro um melhor). Devo muito(muito mesmo)a pessoas como Siouxsie Sioux e Steven Severin. A partir de então  revi meus conceitos sobre o  punk inglês e cheguei a bandas como Bauhaus , Joy Division e The Cure. Sobrevivi a esse processo  em grande parte por causa deles.E de certa forma pude, também por causa deles,dedicar-me à escrita.Até então,só o Depeche Mode , especialmente com seu disco ULTRA , me tocara da mesma maneira(ouço a banda até hoje).         Ali a derrocada transformou-se aos poucos em autoconhecimento e reconstrução;ali escrever significava sobreviver.Ali começou minha busca.           Voltando à frase de Orris Soares...           Suas palavras parecem-me especialmente verdadeiras porque olho , hoje  , com alguma surpresa,para o fato de que, enquanto começava a descobrir não só a poesia mas a literatura como um todo , não identifiquei-me totalmente com  "movimento literários". Através de uma resenha de Alberto Pucheu cheguei ao  "Paranóia" de Roberto Piva mas, por alguma razão , pouco havia sobre os beats na nossa biblioteca. Eu só viria a lê-los muito depois (com especial atenção ao Allen Ginsberg),já na faculdade...           E foi justamente na faculdade que encontrei  Sylvia Plath  e os confessionalistas.         A obra que me marcou não foi , a princípio, o livro "Ariel" que eu tanto procurava,mas seu romance "A Redoma de Vidro". Eu não considerava possível identificar-me tanto com uma personagem como me identifiquei com Esther Greenwood. E justamente esse contato,justamente o que o romance de Plath me causou foi ,de certa forma, o que me fez de fato aceitar-me como poeta e continuar a escrever- pois escrever era,afinal,partir a redoma de uma vez por todas. Daí a terminar meu livro e publicá-lo foi uma outra jornada...e  agora conquistar leitores é o que me motiva.       

3) Como definiria o sentimento de torna-se autor?
O término de um ciclo. Há um certo  alívio,pois eu não sabia se conseguiria,e há também a completude a que me referi antes. Não só tornar-me um autor, mas ser publicado. Agora fica a expectativa pelo que vem no futuro , ser lido...Há uma nova jornada se iniciando.

5) O que o livro mudou em sua vida?
Minha rotina mudou. Posso agora me dedicar  mais aos estudos "convencionais" , ao curso que faço ( estudo Letras-Literaturas na UFRJ). Tenho, também ,uma responsabilidade para com o livro- não posso deixá-lo cair no esquecimento.    

OBS: As respostas não modificadas, ou seja, estão exatamente como o Claudio enviou.

Gostaram de conhecer o mundo do Claudio? Já leram o livro dele? E da entrevista, gostaram?

4 comentários

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Bk.
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14/09/2014 20:50 delete

Não conhecia esse autor, nem o livro. Não sou muito fã de poemas, mas gostei dele :)
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14/09/2014 20:57 delete

Que bom que você gostou dele!

Beijos.

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Liliane Tavares
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15/09/2014 10:32 delete

Belas palavras! Através delas torna-se nítido o amor que o autor sente pela arte em suas diferentes manifestações!

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15/09/2014 11:00 delete

Você precisa ler o livro. É sensacional!

Beijos

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